Da cultura pop à inteligência artificial: um passeio na nova dinâmica no mundo

Se você também segue o calendário gregoriano e faz parte do seleto grupo de pessoas que recebem essa humilde publicação em seu endereço de correio eletrônico — acho chique, hein! —, talvez deva ter reparado que eu estou atrasado e não enviei um mísero texto desde o ano passado. E agora eu me pego na dúvida se desejo um super atrasado feliz Ano Novo ou um adiantado ótimo Carnaval…

De toda forma, tenho bons motivos para não ter me comunicado antes: não consegui organizar nenhuma linha de raciocínio que achasse relevante o suficiente. E também não sei se esse será, mas vamos juntos, porque a ideia foi costurada enquanto eu pensava no anime (animação japonesa) Oshi no Ko. Calma que eu já vou tentar explicar.

As influências do Japão pré anos 2000

Falando bem por cima, Oshi no Ko, disponível na Netflix, conta a história de Aquamarine e Ruby, filhos de uma idol (termo japonês utilizado para se referir a artistas, como cantoras e atores, que são geralmente bem jovens) chamada Ai Hoshino, que é a principal vocalista de um grupo musical no Japão.

Até aqui, parece apenas mais uma história sobre uma família de artistas, mas o primeiro episódio (com pouco mais de 1 hora de duração) já mostra que se trata de uma obra diferente pela quantidade de eventos que vai apresentando (sempre tomando formas inesperadas) até o final. Apesar de não ter assistido à temporada completa ainda, é possível notar uma série de críticas a essa indústria do entretenimento.

Se você nunca ouviu falar de Oshi no Ko, melhor ainda. Recomendo partir direto para o primeiro episódio sem pesquisar maiores informações, porque saber muito mais do que isso pode acabar estragando algumas das surpresas.

Agora, voltando ao tema, foi pensando nessa indústria do entretenimento que surgiu a ideia deste texto. Desde criança, acabei acompanhando na televisão produtos culturais que vieram do outro lado do mundo e, na época, chamávamos tudo de desenho ou, no máximo, desenho japonês. Não havia a distinção entre desenho e anime.

Aliás, não era só anime que passava na TV, havia também os Tokusatsu (filmes e séries com efeitos especiais). Só para citar alguns: nos anos 60 e 70 National Kid e Ultraseven, nos anos 80 e 90 chegaram Jaspion e Changeman, e muitos outros, como a franquia Kamen Rider, passaram na televisão e continuam fazendo sucesso até hoje. Fora a quantidade de gigante de animes como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Yu Yu Hakusho, Pokémon, Naruto, One Piece, entre outros, que fazem sucesso há décadas desse lado do planeta.

Não vou nem entrar em outras áreas como videogames e tecnologia, mas é curioso como um país do outro lado do mundo acabou exportando tanta cultura e como esses materiais foram tão bem recebidos por aqui e pelo restante do mundo. Não por acaso o Japão tornou-se uma referência para a Coreia do Sul, que entrou de cabeça nessa estratégia de exportação de cultura.

A estratégia do Soft Power da Coreia do Sul

A pesquisadora Daniela Klaiman fez uma publicação no LinkedIn sobre um estudo que fez sobre a cultura sul-coreana que vem dominando o mundo nos últimos anos.

Ela explica que existe um conceito chamado Soft Power, criado pelo cientista político Joseph Nye nos anos 90, que diz respeito à capacidade de influenciar outros países por meio da cultura, valores e instituições em vez de meios militares ou econômicos (no caso, Hard Power). Então, ao exportar sua cultura de forma planejada, a Coreia do Sul acaba gerando uma mudança na percepção dos demais países, impactando sua posição no contexto global.

Daniela conta também que esse movimento não é recente e nem ao acaso. Ele foi planejado desde a década de 90, com investimento do governo, sendo parte de uma estratégia tanto econômica quanto diplomática. Alguns exemplos notáveis são os produtos tecnológicos e digitais, a música e as produções audiovisuais.

O longa-metragem Parasita (2019) foi um sucesso internacional e o primeiro filme não falado em inglês a vencer o Oscar de Melhor Filme. A Netflix investiu US$ 2,5 bilhões para a produção de conteúdo coreano, e sua série mais assistida, Round 6 (conhecida também pelo nome Squid Game), é coreana. Além disso, 80% dos assinantes da plataforma consomem conteúdo produzido na Coreia do Sul.

Na música, o clipe Gangnam Style, do rapper Psy, lançado em 2012, “quebrou” o contador de visualizações do YouTube em 2014 devido ao gigantesco número de acessos em todo mundo, sendo o primeiro vídeo na plataforma a ultrapassar 2 bilhões de exibições e obrigando o Google a atualizar o site para que ele pudesse exibir o número correto. Hoje, possui mais de 5 bilhões de visualizações — sim, eu assisti de novo.

Ao considerar que o público ocidental, abrangendo as Américas e a Europa, tem o inglês e o espanhol como as línguas mais comuns (ou, ao menos, as mais aceitas além de seus idiomas originais) para consumo de filmes e séries, uma obra que chega em coreano e faz sucesso é algo muito fora da curva. E, no Brasil, o consumo de séries e músicas coreanas tem gerado um grande interesse do público em aprender o idioma.

Como Daniela explica, há um forte interesse do governo nesse modelo, tanto que a Coreia do Sul fez uma mudança no serviço militar para permitir que os integrantes do grupo pop BTS continuassem sua carreira em expansão internacional, após o sucesso da música Dynamite, que ficou em primeiro lugar nos EUA.

A escritora sul-coreana Han Kangvenceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2024, com seu livro “A Vegetariana“, publicado em 2007 e traduzido para o inglês em 2015.

Se a gente teve muita influência cultural do Japão até meados dos anos 2000, parece que, agora, é a Coreia do Sul que está surfando essa grande onda.

Além da cultura: a tecnologia de ponta da China

Enquanto Japão e Coreia do Sul têm um caminho de expansão mundial parecido, a China, outra potência oriental, busca o mesmo objetivo navegando por águas mais profundas.

Eu não ia comentar sobre tecnologia no início, mas recentemente a inteligência artificial (IA) chinesa chamada DeepSeek, causou uma bagunça boas no mercado das maiores empresas de tecnologia americanas, trazendo não só um modelo muito mais barato, mas também muito mais leve, além de ser de “código aberto” (entre aspas, porque o código pode ser consultado e modificado, mas não se sabe quais informações foram usadas para treinar esse modelo de IA).

O professor Diogo Cortiz comenta, em uma publicação no LinkedIn, que a China hoje copia o processo feito pela Coreia do Sul, que investiu em conhecimento para se alavancar, começando por copiar produtos para entender o que funciona e como é feito e, depois de aprender e gerar conhecimento, criar suas próprias soluções.

Lembra de alguns anos atrás, quando as pessoas compravam produtos (eletrônicos ou não) que eram réplicas, geralmente de qualidade duvidosa e preço muito barato? Era a China aprendendo e testando.

Diogo compartilha em outra postagem que a China já anunciava seu investimento em estudos e publicações acadêmicas para se tornar líder no segmento de IA até 2030. E parte desse plano consiste em ter o dobro de pessoas com pós-doutorado do que os Estados Unidos têm.

E o investimento em educação vem trazendo grandes resultados. Luo Fuli, uma engenheira formada na Universidade de Pequim (considerada a melhor da China), é a autora uma série de artigos científicos sobre linguagem computacional, e criou o modelo mais avançado da inteligência artificial DeepSeek, que atualmente rivaliza com as empresas americanas.

A estratégia chinesa segue tão firme que, mesmo sem acesso aos chips e placas mais avançados e tecnológicos, conseguiram desenvolver um modelo de inteligência artificial mais otimizado. Para se ter uma ideia da comparação, a inteligência artificial da Meta (empresa dona do Instagram e WhatsApp) precisou de 30 milhões de horas com os melhores processadores disponíveis no mercado. O DeepSeek precisou de 2,78 milhões de horas, utilizando processadores gráficos de menor desempenho.

Segundo uma matéria do UOL, em uma comparação financeira:

Estima-se que o custo para treinar o DeepSeek tenha sido de menos de US$ 6 milhões, enquanto o Google investiu mais de US$ 170 milhões para treinar o Gemini (sua ferramenta de IA).

Esse mesmo artigo comenta que o processo otimizado resulta em um menor consumo de recursos, como energia, e também em um custo de uso mais baixo para os clientes. Enquanto a inteligência artificial ChatGPT (da empresa OpenAI) custa US$ 2,50 o DeepSeek custa US$ 0,27. Ou seja, um desempenho similar, por aproximadamente 10% do valor da ferramenta que é a líder de mercado atual.

O “sonho americano” está virando pesadelo

Se, do lado chinês, há muita repercussão e otimismo pelo trabalho executado, do outro lado do mundo, os norte-americanos parecem já ter visto uma América mais grandiosa, inclusive quando se fala em redes sociais.

A rede social de vídeos curtos, TikTok, da empresa chinesa ByteDance, vem sendo duramente criticado pelo governo americano. Segundo os EUA, o aplicativo chinês causa preocupação com a coleta de dados dos usuários — e ele também é o mais utilizado entre os jovens norte-americanos, fazendo a popularidade de todas as outras redes sociais cair desde 2020, mas não é essa a principal preocupação, não… — então, os EUA bloquearam o aplicativo no país. Porém, pouco tempo depois, já liberaram de novo, querendo negociar uma participação de 50% para ter controle dos dados — e do algoritmo chinês…

Fora essa treta, o caldo azeda de vez para as grandes empresas de tecnologia quando falamos sobre inteligência artificial (sim, ela de novo). Com o objetivo de “tornar os Estados Unidos a capital mundial da inteligência artificial”, Trump anunciou o investimento de, pelo menos, 500 bilhões de dólares em infraestruturas de inteligência artificial no país.

O que os americanos não esperavam era que, dias depois do anúncio de investimento, a China lançaria uma nova versão do DeepSeek, fazendo as ações na bolsa de valores americana terem quedas brutais. A Nvidia, empresa líder na fabricação dos processadores usados para inteligência artificial, teve uma queda de 17%, representando uma perda de US$ 600 bilhões e considerada a maior queda na história do mercado de ações americano.

Completando o cenário, a OpenAI (dona do ChatGPT), alega que os chineses usaram ilegalmente os dados da sua ferramenta para criar o modelo DeepSeek. A Microsoft, que também está na corrida da inteligência artificial com sua ferramenta Copilot, também está investigando essa possibilidade.

Ironicamente, a própria OpenAI é acusada de — adivinha??? — usar dados ilegalmente, com ações judiciais em andamento pelo uso de conteúdos protegidos por direitos autorais e sem permissão.

O Brasil nesse carnaval de acontecimentos

Tanto no cenário da inteligência artificial (que trabalham com grandes quantidades de informações) quanto na situação das redes sociais, como o TikTok (que possui um algoritmo bastante avançado para atuar com dados dos usuários), uma das grandes preocupações é (ou deveria ser, pois vejo poucas pessoas falando sobre isso) o uso ético dessas informações. Quando digo “uso”, eu me refiro também à forma como o dado é coletado, armazenado e utilizado posteriormente, por exemplo.

Cada país tem suas regras e legislações específicas sobre esse assunto, como a nossa Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Todas as grandes potências por todo o mundo estão debruçadas em IA ou criando um plano para, ao menos em certo nível, terem uma tecnologia proprietária que reconheça suas nuances de língua, sua cultura em diferentes regiões e que atenda às particularidades governamentais específicas de seu país, como o armazenamento e tratamento dos dados utilizados, por exemplo. E isso não é diferente aqui.

A Estratégia Brasileira para Inteligência Artificial (EBIA) é o plano do governo, iniciado em 2019, para guiar as ações do Brasil no desenvolvimento dessa tecnologia.

Segundo o site do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a EBIA possui cinco princípios definidos:

  1. crescimento inclusivo, o desenvolvimento sustentável e o bem-estar;

  2. valores centrados no ser humano e na equidade;

  3. transparência e explicabilidade;

  4. robustez, segurança e proteção e;

  5. a responsabilização ou a prestação de contas.

E possui como objetivos:

  • Contribuir para a elaboração de princípios éticos para o desenvolvimento e uso de IA responsáveis.

  • Promover investimentos sustentados em pesquisa e desenvolvimento em IA.

  • Remover barreiras à inovação em IA.

  • Capacitar e formar profissionais para o ecossistema da IA.

  • Estimular a inovação e o desenvolvimento da IA brasileira em ambiente internacional.

  • Promover ambiente de cooperação entre os entes públicos e privados, a indústria e os centros de pesquisas para o desenvolvimento da Inteligência Artificial.

O planejamento é pautado em 9 eixos (3 transversais e 6 verticais), que destacam os desafios, a visão de futuro e as ações estratégicas para esse projeto.

Os três eixos transversais apontam as bases e fundamentos para a construção, uso e manutenção das iniciativas, que devem estar presentes e guiar todas as ações, enquanto os seis eixos verticais representam caminhos a serem seguidos, estruturados e construídos para avançarmos com o tema.

Como aponta Guilherme Favaron em um artigo, competir mundialmente com tecnologias de inteligência artificial não é um plano fácil e rápido de ser executado, exige investimentos em capacitação de pessoas, desenvolvimento de infraestrutura, colaboração entre governo, academia e setor privado e diversas considerações e questões éticas a serem monitoradas.

Apesar de trabalhoso, não significa que seja impossível! O trabalho ao longo dos anos recompensou Japão, Coreia do Sul e China e pode fazer o mesmo aqui. Inclusive já temos iniciativas brasileiras muito interessantes, como a Maritaca.AI e a Amazônia IA, que podem ser testadas gratuitamente.

Voltando para o tema inicial, sobre cultura e entretenimento, a atriz Fernanda Torres, que foi vencedora do Globo de Ouro e está concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz com o filme “Ainda estou aqui” (que concorre também nas categorias Melhor Filme Internacional e Melhor Filme), faz uma reflexão em uma entrevista com Rodrigo Ortega bastante interessante e inspiradora. Ela diz:

O Brasil é uma ilha continental e a gente é isolado pela nossa língua, mas, ao mesmo tempo, a gente consome nossa cultura, a gente tem total interesse em nós mesmos, porque nós somos uma potência de 200 milhões de pessoas… Eu conheço a cultura francesa, conheço a cultura americana, conheço a cultura russa, a cultura alemã, a cultura italiana, mas eles não conhecem a cultura brasileira muito. Às vezes, eu tenho pena de quem nunca leu Machado de Assis, de quem não conhece o Eça de Queiroz. Agora, as pessoas conheceram a Clarice Lispector e escrevem assombradas. Como eu posso falar com alguém que não sabe quem é Nelson Rodrigues, Candeia? Ao mesmo tempo, o Brasil tem esse ‘complexo de vira-lata’ de não-comunicação com o mundo, por outro lado, o Brasil tem pena do mundo não saber o que a gente sabe. Quando alguém fura a fronteira e leva algo que nos é pessoal para fora, é essa espécie de sentimento de \’olha o que a gente tem de rico\’, é um sentimento de orgulho nacional bacana, bom de sentir.

Outros filmes como Cidade de Deus (2004), O Menino e o Mundo (2016) e Democracia em Vertigem (2019), por exemplo, também já foram indicados ao Oscar em outras categorias, mas “Ainda Estou Aqui” tem um destaque especial por ser a primeira vez que vemos um filme brasileiro concorrendo na categoria de Melhor Filme no Oscar.

Ainda nas produções audiovisuais, as novelas que produzimos também fazem muito sucesso lá fora e o programa infantil Cocoricó (1996), criado pela TV Cultura, além de fazer um enorme sucesso no Brasil, também conquistou prêmios internacionais.

E, na literatura, no ano passado, uma influenciadora americana leu o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) pela primeira vez e se apaixonou por Machado de Assis. E, antes mesmo de terminar o livro, fez um vídeo no TikTok que viralizou nas redes sociais, comentando sobre como estava agoniada pensando no que seria da vida dela quando terminasse a leitura. Como consequência as buscas e venda do livro nos EUA cresceram.

Portanto, além dos exemplos que vimos sobre o planejamento e os investimentos em longo prazo dos países asiáticos, é importante lembrar da fala de Fernanda Torres: nós somos uma potência de 200 milhões de pessoas, temos pena de quem não conhece nossa cultura e sentimos orgulho quando alguém leva um pouco do nosso país para o mundo conhecer. Então, com as condições corretas, também somos totalmente capazes de ganhar o mundo inteiro, seja com nossa cultura ou com nossas tecnologias.



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