No texto passado, comentei brevemente sobre minha intenção de reduzir o uso de telas e substituí-las por um hábito de leitura.
A verdade é que é difícil escapar das telas, principalmente porque temos uma no bolso o tempo todo, que nunca é desligada e, mesmo ao dormir, permanece a menos de 1 metro de distância. Essa era a tela que mais me incomodava.
Inúmeras vezes, antes de dormir, eu pegava o celular para ver um “negocinho”, algo simples que poderia resolver em 2 minutos. Porém, já que havia conferido o que precisava e estava com o aparelho na mão, ia checar outra coisa ali na rede social, só pra ver como estava. O que poderia dar errado?
E com esse famoso “já que estou fazendo isso, vou fazer aquilo”, passavam 30 minutos ou 1 hora (quando não mais) sem que eu percebesse. Eu até via publicações que eram interessantes e que valiam salvar para estudar mais profundamente depois, mas que não tinham nenhuma relação com meu objetivo inicial e, definitivamente, na hora mais inadequada possível.
Aí pronto, meus sistemas de atenção já haviam sido sequestrados pelas rolagens infinitas das redes…
Nossos dois sistemas de atenção
Foi numa dessas noites que decidi parar de usar o celular antes de dormir. Certo, não foi fácil assim, do dia para a noite (ou da noite para o dia), mas esse foi o começo.
Segundo Daniel Kahneman, psicólogo e economista, nossa atenção faz parte de 2 sistemas de pensamento que possuímos, como ele explica em seu livro “Rápido e devagar“:
O Sistema 1 opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e nenhuma percepção de controle voluntário.
O Sistema 2 aloca atenção às atividades mentais laboriosas que o requisitam […] as operações do Sistema 2 são muitas vezes associadas com a experiência subjetiva de atividade, escolha e concentração.
Podemos dizer que o Sistema 1 é mais “impulsivo” e “rápido” em seus processos e o Sistema 2 é mais “controlado” e “devagar” (como diz o título do livro). Mas é importante destacar que o controle da nossa atenção é compartilhado por esses dois sistemas. Daniel Kahneman cita um exemplo:
Orientar-se para um som alto normalmente é uma operação involuntária do Sistema 1, que imediatamente mobiliza a atenção voluntária do Sistema 2.
Você talvez seja capaz de resistir a se virar em direção à fonte de um comentário alto e ofensivo numa festa cheia de gente, mas mesmo que sua cabeça não se mova, sua atenção é inicialmente dirigida para lá, pelo menos por algum tempo.
Todos os processos que realizamos no Sistema 2 exigem atenção e são interrompidos quando a ela é desviada. Porém, com tantas atividades e tarefas em nosso dia a dia, somos frequentemente interrompidos.
Um exemplo dessa interrupção constante é a quantidade de notificações que chegam em nossos celulares num intervalo de poucos minutos.
Múltiplos concorrentes da atenção
Por um lado, há mais demanda por nossa atenção; por outro, nos acostumamos com as constantes interrupções. E fizemos isso tão bem que, às vezes, é difícil nos concentrarmos em uma única tarefa por um período mais prolongado.
Lembro de ler, já há algum tempo, uma notícia sobre a atriz Millie Bobby Brown, protagonista da série Stranger Things na Netflix, comentando que ela tem dificuldade em parar e simplesmente assistir a um filme:
Se não estou fazendo alguma coisa, simplesmente não consigo ficar sentada olhando para a tela por tanto tempo.
Na época da entrevista Millie tinha 20 anos, mas é possível notar comentários e comportamentos semelhantes em pessoas mais jovens e mais velhas. Você já deve ter escutado alguém falar que o filme é “muito longo” ou que poderia ser “mais curto”.
No livro “O Cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era“, Marianne Wolf apresenta um estudo na mesma linha:
Um estudo recente da corporação Time Inc. sobre os hábitos das pessoas na faixa dos 20 anos, no que diz respeito aos meios de comunicação, indicou que elas mudavam de fonte de mídia 27 vezes por hora. Em média, atualmente, elas checam o telefone celular entre 150 e 190 vezes por dia.
Se contabilizarmos, arredondando para baixo, 150 checagens de celular por dia equivalem, em média, a 1 vez a cada 10 minutos. Trabalho é o que não falta para o Sistema 1…
Há alguns anos, enquanto assistíamos algo, o celular era nossa segunda tela, usado para comentar o que estávamos vendo e consultar o que outras pessoas estavam falando ou informações relacionadas. Agora ele é a tela principal e o filme acaba sendo a tela secundária que consumimos.
Então, durante vários momentos ao longo do dia nós perdemos horas no celular (possivelmente com redes sociais), vendo incontáveis conteúdos fragmentados, mas, quando precisamos do Sistema 2 para sustentar a atenção durante algumas horas assistindo a um filme, não conseguimos.
Fica a pergunta: se sabemos que isso atrapalha nossas vidas e nos prejudica, por que continuamos?
Um constante querer mais
Em 2002 a banda Capital Inicial lançou uma música chamada “Mais“. A letra introduz o refrão pela primeira vez como “o novo hino dos descontentes” e segue com:
Eu sempre quero mais que hoje
Eu sempre quero mais que ontem
Eu sempre quero mais do que eu posso ter
Se os “descontentes” de mais de 20 anos atrás queriam sempre mais, os jovens de hoje já crescem acostumados a isso. Maryanne Wolf, que eu não sei se gostava de Capital Inicial, escreve algo em sintonia com a música:
Não vemos ou ouvimos com a mesma qualidade de atenção, porque vemos e ouvimos demais, nos acostumamos e pedimos mais.
Nesse constante querer mais, há um aumento de estímulos, fontes, produtos, aplicativos, filmes, músicas, livros, meios de comunicação… Temos muito mais acesso a todo tipo de entretenimento e “informação”, e tudo ao alcance de um toque na tela.
Maryanne Wolf alerta que a constante busca por mais estimulação digital acarreta ainda mais aborrecimento e tédio, especialmente em crianças. Ela escreve:
…quanto mais usados os aparelhos, mais dependente se torna toda a família em relação a acessos digitais como fontes de entretenimento, informação e distração…
As redes sociais são um grande exemplo de fontes digitais de entretenimento, informação (ou desinformação, em alguns casos) e distração. Algumas podem agrupar os 3 itens, outras podem pender para um dos lados, dependendo do nosso uso e da forma como funcionam.
Desde seu início com o mIRC em 1995 até o Bluesky dos dias de hoje, elas cresceram muito em variedade de aplicativos, número de usuários, formatos de publicação e formas de interação. Tudo isso afetando, claro, o nosso consumo.
Se antes a tecnologia permitia uma comunicação mais lenta e limitada a texto e fotos, hoje somos impactados continuamente por inúmeros vídeos curtos de forma contínua em praticamente todas as redes sociais. E nosso Sistema 1 que lute…
Viciados em redes sociais
Produtos digitais como as redes sociais são, no mínimo, complexos. Não só pela parte de tecnologia, mas pela forma como permeiam a cultura e conseguem impactar em diversos pontos de nossas vidas e mentes. Designers, antropólogos e psicólogos podem comprovar isso de olhos fechados.
Todos os aplicativos têm seus bônus e seus ônus. As redes sociais, em especial, permitem o contato e a troca de informações, que podem gerar amizades e oportunidades. Por outro lado, também podem disseminar notícias falsas, discursos de ódio e até manipular eleições inteiras.
Nessa listagem de malefícios, um fenômeno novo vem surgindo, ou melhor, se agravando: o vício em redes sociais.
Recentemente foi publicada uma matéria no NPR investigando o vício de jovens na plataforma TikTok. Em tradução livre ela apresenta dados preocupantes:
TikTok quantificou o exato número de visualizações que é necessário para alguém formar um hábito: 260 vídeos […] autoridades de Kentucky reforçam que pode parecer muito, mas os vídeos do TikTok podem ter apenas alguns segundos de duração.
Avançando na matéria chegamos à conclusão dos investigadores:
Assim, em menos de 35 minutos, um usuário médio provavelmente ficará viciado na plataforma.
Como se isso não fosse grave o suficiente, a reportagem revela que 95% dos celulares de adolescentes menores de 17 anos têm o aplicativo instalado, ou seja, jovens acessando diariamente uma rede social com potencial de criar um hábito vicioso após 35 minutos de uso.
Dra. Anna Lembke apresenta em seu livro “Nação Dopamina” a definição genérica de adicção (ou vício):
…é o consumo contínuo e compulsivo de uma substância ou um comportamento (jogos, vídeo game, sexo), apesar do mal que fazem para a pessoa e para os outros.
A grande questão do vício é que o prazer (dopamina) sentido durante a atividade está totalmente ligado ao sofrimento quando não podemos mais ter esse estímulo. São duas faces da mesma moeda, ficando inclusive na mesma região do nosso cérebro. Dra. Anna Lembke explica:
[…] neurocientistas verificaram que o prazer e o sofrimento são processados em regiões sobrepostas do cérebro e […] funcionam como uma balança. […] Quando sentimos prazer, a dopamina é liberada em nosso circuito de recompensa, e a balança inclina-se para o lado do prazer. Quanto mais ela se inclina, e quanto mais rápido, mais prazer sentimos.
O processo de prazer e sofrimento funciona como uma balança, e nosso corpo, quando saudável, automaticamente trabalha para manter o equilíbrio. Quanto mais tempo e mais forte a balança pende para um lado, mais força o corpo irá usar para fazer tudo se equilibrar novamente:
sempre que a balança se inclina em direção ao prazer, mecanismos autorreguladores poderosos entram em ação para nivelá-la novamente. Esses mecanismos autorreguladores não exigem um pensamento consciente nem um ato de vontade. Eles simplesmente acontecem, como um reflexo. […] Com a repetida exposição ao mesmo estímulo ao prazer, ou a um estímulo semelhante, o desvio inicial para o lado do prazer fica mais fraco e mais curto, e a resposta posterior para o lado do sofrimento fica mais forte e mais demorada […] precisamos de uma maior quantidade da droga de nossa escolha para obter o mesmo efeito.
O professor Clóvis de Barros Filho apresenta esse processo da constante busca pelo prazer com uma analogia bastante clara: ao se ter vontade de comer pamonha, a primeira degustada é fenomenal. A segunda, apesar de boa, já não alegra tanto quanto a primeira. Insistindo em continuar a busca pelo prazer que sentimos pela primeira, comemos a décima. Aí o erro é evidente e tudo desanda inevitavelmente.
Um prejuízo para todos nós
Se tive sorte durante esse texto, intencionalmente muito mais longo do que todas as recomendações atuais de marketing e publicidade, você e seu Sistema 2 continuam engajados para seguirmos com a reflexão de que esse não é um problema isolado.
Apesar da evolução tecnológica e dos meios de comunicação, nosso sistema de pensamento e atenção continua o mesmo de anos atrás. Nosso processo de autocontrole e balanceamento entre prazer e vício também permanece inalterado.
A questão parece ser muito mais sobre como lidamos com essa aceleração digital e tecnológica diante de nossa limitação biológica.
Com tantos estímulos e menos paciência para se aprofundar nas informações, Maryanne Wolf também observa uma piora na leitura e na habilidade de escrita dos estudantes:
A relação crítica entre a qualidade da leitura e a qualidade do pensamento é fortemente influenciada pelas mudanças na atenção […] os estudantes se tornaram cada vez mais impacientes com o tempo exigido para compreender a estrutura de sentenças mais difíceis em textos mais densos e mais avessos ao esforço necessário para ir a fundo em sua análise. […] Separar a verdade da ficção toma tempo, letramento informacional e uma mente aberta, coisas que parecem estar em falta numa cultura desatenta e polarizada.
Segundo Maryanne Wolf, estamos sendo prejudicados na forma de pensar criticamente. Daniel Kahneman sintetiza:
Qualquer coisa que ocupe sua memória de trabalho reduz sua capacidade de pensar.
Consumimos tanto conteúdo e acabamos não refletindo criticamente sobre nada. O que acabamos de ver já tem que dar espaço para a próxima informação, não há tempo para pensar.
Acabamos sendo vítimas da tecnologia que criamos e que nos vicia de forma tão efetiva, que o pouco tempo que temos disponível para nos divertimos e descansarmos é tomado pelo uso das telas e redes sociais.
Ao sequestrar nossa atenção, as telas levam também nossas relações, tempo, sono e tudo mais que poderíamos fazer ou criar.
Se esses são motivos válidos para você, considere também uma revisão nos seus hábitos e rotinas com as telas que te cercam, ações simples, como limitar o tempo de uso dos dispositivos e ocultar notificações que não são urgentes, já podem ajudar bastante.
Ah, e considere também não usar o celular antes de dormir.
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